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terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Açaí catarinense: ameaçada no passado pela extração de palmito, palmeira juçara se valoriza no verão
PATRIMÔNIO
18/12/2017- 05h38min
  -  Atualizada em 18/12/2017- 15h17min
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Açaí catarinense: ameaçada no passado pela extração de palmito, palmeira juçara se valoriza no verão Diorgenes Pandini/DC
Palmeira-juçara está presente em 30% do território catarinense
Foto: Diorgenes Pandini / DC
Nos meses de colheita, é comum Inês Maria Luz de Souza chegar à missa de domingo com as unhas manchadas de roxo depois de coletar e separar as bagas de açaí maduras das que ainda estão verdes. Esfregar limão é o melhor método para tirar o pigmento que o fruto do açaí juçara solta quando manipulado, ensina a agricultora de 55 anos. 
No Sítio Luar do Sertão, localizado no Morro da Laranjeira, uma área com bananais em morros verdes e ainda preservados oficialmente conhecida como São Marcos, na região rural de Biguaçu, a cerca de 40 quilômetros de Florianópolis, vive a família que hoje é um modelo em produção orgânica do açaí juçara, o açaí catarinense.
Pode parecer curioso, mas nem só de palmito vive a juçara, palmeira que já foi uma das mais abundantes na Floresta Ombrófila Densa, que cobria originalmente um terço do território catarinense e hoje integra a lista de espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção. 
A planta, cobiçada até pouco tempo por causa apenas do palmito, dá um fruto igualzinho em sabor, cor e tamanho ao açaí da Amazônia, esse mesmo vendido em tigelas generosas com banana e guaraná que é o preferido no verão. 
Há quem diga que o açaí do Sul tem sabor ainda mais frutado e mais nutritivo, mas essa é uma discussão para mais adiante nesta reportagem. A frutinha tem suas características: cai do pé e marca as calçadas de roxo, cresce igual mato e é adorada por sabiás.
A produção comercial dos frutos da juçara é recente em Santa Catarina – começou em 2003 –, mas o Estado já é o maior produtor do Brasil. A Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de SC (Epagri) estima que sejam processadas, em média, entre 150 a 200 mil quilos de frutos por ano (o que equivale entre 500 mil e 600 mil tigelas de açaí de 300 gramas). 
 FLORIANOPOLIS, SC, BRASIL, 19.06.2017: Açais retirados de palmeiras Jussara melhoraram a renda da agricultura familiar dos ___ no interior de Biguaçu. (Foto: Diorgenes Pandini/DCEditoria: FotLocal: FlorianópolisIndexador: Diorgenes PandiniFonte: DCFotógrafo: Fotojornalista
Foto: Diorgenes Pandini / DC
SC é também pioneiro na estruturação da cadeia, com operadores que atuam desde o mercado local até o nacional e o internacional, segundo dados da Análise e Plano de Melhoria da Cadeia de Valor da Polpa dos Frutos da Palmeira Juçara realizado em 2013 pela Rede Juçara, uma articulação de organizações e produtores que trabalham com o uso sustentável da planta no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro.
Por aqui, a produção é quase toda baseada na agricultura familiar, e diversas propriedades possuem certificação orgânica – até porque a palmeira é indicada para ser cultivada junto a outras culturas.
Há seis anos que o cultivo do açaí juçara passou a incrementar a renda da família de Alécio José de Souza, 60 anos, Inês Maria Luz de Souza, 55, e o filho, Jedean Alex de Souza, 28. Para chegar à propriedade deles, é preciso pegar a estrada em direção à localidade de Três Riachos, no interior de Biguaçu. 

É um alimento nutritivo, rico em ferro e nutrientes. E o segredo contra a desconfiança de coisa nova, normal nas crianças, é adaptar.

Kalina Trizelato de lima

Nutricionista
A estrada de asfalto vira rua de terra e logo mais à esquerda, em São Marcos, está o sítio Luar do Sertão. Lá eles produzem banana orgânica, vendidas nas sextas e sábados na feira do centro da Capital, junto com caldo de cana, melado e outros produtos colhidos na horta ou feitos por Inês, além da polpa do açaí.
– O trabalho é só dos passarinhos, nem precisa se preocupar em plantar. Eles fazem o trabalho de semear – ensina Inês.
Já na entrada da casa se veem alguns pés da juçara. Mas é nos morros e em meio a outras plantas que a palmeira impera. No período de colheita, que vai de fevereiro a agosto – no Norte do país dura o ano inteiro –, dependendo do clima ou do ano, a família chega a produzir entre 700 e mil quilos de polpa.  
— Antes eu trabalhava como vendedor de calçados, a mãe cuidava de uma senhora. Hoje vivemos só da roça — conta Jedean Alex de Souza, que depois de terminar a faculdade de administração, voltou para Biguaçu, comprou um pedaço de terra e trabalha junto com os pais. É ele quem geralmente vai para o centro da Capital vender os produtos que a família produz.
Mas a revolução na família Souza foi mesmo feminina. Inês incentivou muito a família a experimentar o novo. Além do estímulo, ela é também força de trabalho. Quando o sol levanta, já está a postos e só para quando a noite chega. Lembra que, no segundo ano de colheita da juçara, a família colheu 10 mil quilos.
– Estavam ocorrendo reuniões sobre açaí com a Epagri e, num dia, quando estava cuidando de uma senhora e não pude participar, o Alesio foi no meu lugar – conta Inês.

PALMEIRA DA FARTURA

A palmeira juçara já cobriu um terço do território catarinense e hoje integra a lista de espécies ameaçadas de extinção. A planta, cobiçada até pouco tempo por causa apenas do palmito, dá um fruto igualzinho – em sabor, cor e tamanho – ao açaí da Amazônia, o mesmo vendido em tigelas generosas com banana e guaraná

Infográfico: Ben Ami Scopinho
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Feito com o

Sabor de sustentabilidade 

O açaí-juçara é fruto da mesma palmeira da qual se extrai o palmito-juçara (Euterpe edulis). De tão cobiçado, a exploração descontrolada do palmito levou a espécie nativa, e antes existente em grande parte do bioma Mata Atlântica, a ser incluída na lista de espécies ameaçadas de extinção no final do século 20. Hoje, a extração do palmito-juçara é considerada crime ambiental (Lei 9.605, de 12 de fevereiro de 1998).
A palmeira-juçara está presente em 30% do território de Santa Catarina (veja mapa na página 5), principalmente no litoral e nas regiões do Vale e Alto Vale do Itajaí. 
– Os nossos estoques já tinham muito palmito. O produtor já manejava, até porque é um cultivo mais rústico. Para fruto, é preciso técnica. É uma planta de sub-bosque, então, se você analisar uma floresta nativa, tem-se uma média de 2 mil plantas por hectare — explica o engenheiro agrônomo Fabio Zambonim.
Muito além de produzir uma fruta saborosa ou o tão cobiçado palmito, a palmeira-juçara tem importância ecológica fundamental. 
– É uma planta importante para o equilíbrio ecológico. Uma espécie que é chave. Desde mamíferos grandes até insetos dependem dela. O cultivo agroflorestal (é o que a gente recomenda, nunca um tipo de planta apenas) contribui para a preservação – ressalta o pesquisador da Epagri, Fabio Zambonim.
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A diferença fundamental entre cultivar da palmeira para extrair o fruto, e não o palmito, é porque o corte dos cachos não causa a morte planta. Para retirar palmito, corta-se o caule e sacrifica a árvore toda, que leva em média oito anos para começar a produzir. Por isso, a fruta possibilita mais rendimento econômico.
Em Santa Catarina, a Epagri estimula o cultivo da juçara para uso múltiplo, ou seja, colher frutos e palmito nos desbastes necessários para manejo.
– Não precisa demonizar. Num manejo grande, é preciso fazer o desbaste. E esse serve para vender palmito. Até porque, o palmito, com outras espécies, é importante para o Estado. Palmeira-real e pupunheira já têm cadeia produtiva bem estabelecida, que nem se compara ainda com a do fruto da juçara, que tem apenas duas ou três indústrias. De palmito, existem mais de 50. Então o palmito poderia ser absorvido perfeitamente, porque é uma fonte de renda a mais para o produtor — conclui.

Em Itajaí, sítio pioneiro começou 
a cultivar açaí-juçara há 18 anos

Um dos pioneiros a produzir açaí-juçara em Santa Catarina foi o Sítio Thaufbac, na área rural de Itajaí. O começo inusitado foi há 20 anos. A sogra de Orival, o proprietário, nascida no Pará, veio visitá-lo e, durante um passeio pelo Beto Carrero World, identificou a fruta nas árvores do parque em Penha, Litoral Norte do Estado. 
“Mas isso é açaí. E que gostoso, é melhor que o nosso”, ela confirmou, após mastigar um coquinho. Ele ainda tentou explicar que era palmito, que no Sul não tem açaí, mas ela finalmente o convenceu e inclusive o ensinou a manipular a fruta. Também o presenteou com uma despolpadora, vinda direto do Pará.

Quando a fruta está bem roxa e brilhando, é quando está madura. No começo, a gente pegava ainda verde. Aprendemos que não pode, porque amarga o suco.

JEDEAN ALEX DE SOUZA,

Produtor
Foi então que ele começou a plantar, e já pensando no fruto, não no palmito. Até porque, segundo ele, um cacho de bagas rende mais dinheiro do que uma peça de palmito. Para o dono, usar juçara como segundo nome do fruto é ofensa.
– É açaí. Porque não tem diferença do nosso açaí daqui ou de quem quer que seja. E a baguinha de lá não é tão forte quanto essa aqui, porque lá é muito quente. Açaí aqui é mais escuro e lá colocam muita água – atesta.
No Sítio Thaufbac, a safra de 2017 foi menor em razão do clima. Os frutos amadureceram de maneira irregular, com bagas maduras e verdes no mesmo cacho. Por isso o sítio produziu apenas pouco mais de 2 mil quilos. A expectativa era de cinco toneladas. Em ano de boa colheita, chega-se a colher 600 quilos por dia.
Hoje, o que se produz na propriedade é apenas para consumo da família. Há até poucos anos, o sítio chegou a fabricar polpas de frutas e a vender para duas distribuidoras. Agora a venda é apenas em pequena quantidade e para vizinhos e familiares. 
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Açaí só se colhe em dias de sol

No sítio Luar do Sertão, em Biguaçu, a família Souza aprendeu que a colheita do açaí-juçara deve ser feita sempre em dias de sol, porque, caso os bagos molhem, a umidade estraga a polpa. Tudo é feito pelos três, num exemplo bem sucedido de agricultura familiar.
Diferentemente do Pará, onde os coletores escalam a árvore de açaizeiro para colher os cachos, por aqui se criou uma estratégia mais simples, mas não com menos malabarismos, para pegar os frutos: uma espécie de foice com 15 metros de cabo, feita em alumínio. A coleta é sempre em equipe: mãe, pai e filho. Enquanto um corta o galho com a foice ou o gancho, os outros dois recolhem a fruta com um saco, uma grande rede confeccionada com lona de caminhão, forte o suficiente para carregar alguns bons quilos.
 FLORIANOPOLIS, SC, BRASIL, 19.06.2017: Açais retirados de palmeiras Jussara melhoraram a renda da agricultura familiar dos ___ no interior de Biguaçu. (Foto: Diorgenes Pandini/DCEditoria: FotLocal: FlorianópolisIndexador: Diorgenes PandiniFonte: DCFotógrafo: Fotojornalista
Foto: Diorgenes Pandini / DC
— Quando a fruta está bem roxa e brilhando, é quando está madura. No começo, a gente pegava ainda verde. Aprendemos que não pode, porque amarga o suco — explica Jedean Alex de Souza.
Após a colheita, vem a parte mais trabalhosa: separar as bagas maduras. No máximo um dia depois elas são levadas para despolpa. Depois disso, a fruta pode ser vendida pura ou processada, já com a mistura tradicional de banana e guaraná.

O mercado do açaí

Se no Norte do país o açaí está na base da alimentação, de preferência acompanhado de carne seca, peixe e bastante farinha, no Sul e no Sudeste a fruta virou moda. Principalmente a partir dos anos 1990, e servido bem docinho, batido com banana e xarope de guaraná, em tigelas para nenhum marombeiro botar defeito.
Há quem diga que foi a novela Malhação, folhetim jovem da TV Globo, que deu um empurrãozinho para a fruta ser tendência. Um dos diretores do programa experimentou quando visitava Belém do Pará, no famoso Mercado Ver o Peso, e se apaixonou. Levou para o Rio, apareceu na novela, o pessoal do esporte aprovou e hoje é paixão nacional e produto de exportação – no ano passado, a exportação da fruta paraense gerou R$ 67.196.888. 
A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) ainda tem dificuldades para quantificar o volume exportado, principalmente em razão das diferentes nomenclaturas usadas pelos exportadores. Estados Unidos, Japão e Austrália, respectivamente, que são os maiores importadores da fruta brasileira.
 FLORIANOPOLIS, SC, BRASIL, 19.06.2017: Açais retirados de palmeiras Jussara melhoraram a renda da agricultura familiar dos ___ no interior de Biguaçu. (Foto: Diorgenes Pandini/DCEditoria: FotLocal: FlorianópolisIndexador: Diorgenes PandiniFonte: DCFotógrafo: Fotojornalista
Foto: Diorgenes Pandini / DC
No Brasil, a região sudeste (SP, RJ, ES e MG) é a que mais consome o açaí paraense fora da região Norte e representa 56,5 % — o equivalente a 62.448 mil toneladas em 2016, segundo a Gerência de Fruticultura da Secretaria de Estado da Fazenda do Pará. 
Pelo fato de a cadeia do mercado do açaí ainda estar em processo de organização, a Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas (Abrafrutas) não tem dados específicos do quanto vem para Santa Catarina. Tampouco a Secretaria da Fazenda de Santa Catarina consegue fazer esse cálculo, porque a polpa do açaí chega junto com a de outras frutas e ainda é difícil chegar a um número redondo.
Mas SC é um mercado em potencial. Para se ter uma ideia, só em uma das principais distribuidoras de polpas de frutas do litoral catarinense são comercializadas uma média de 50 toneladas de açaí por ano.
– O consumo de açaí fora da região amazônica começou no final dos anos 90 como uma “modinha”. Foi se espalhando, o consumo foi crescendo, e percebemos que o mercado estava aberto. A aposta deu certo e hoje temos uma linha bastante completa de produtos à base de açaí — diz Kleber Marcos da Silva, sócio e gerente da empresa que comercializa a fruta desde 1998.
Em Florianópolis, uma das mais populares redes de açaí chega a vender 15 mil unidades em forma de suco, vitaminas ou tigelas) por mês, nas três lojas de Florianópolis — duas no bairro Rio Tavares e uma no Morro das Pedras. E eles têm planos de expansão para 12 lojas na Grande Florianópolis.
A produção comercial dos frutos da juçara, o açaí catarinense, é recente no Estado. Começou oficialmente em 2002 e hoje Santa Catarina é o maior produtor de açaí-juçara do Brasil, muito graças ao trabalho da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural (Epagri) e das pesquisas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Ainda não existem levantamentos anuais da quantidade de juçara produzida anualmente, porque é uma cultura nova e ainda não está entre as principais lavouras do Estado, como banana, maçã e cítricos, por exemplo. O levantamento mais recente é de novembro de 2013, realizado pela Rede Juçara, e mostra que a safra de 2012, por exemplo, rendeu 245 toneladas de frutos e 123,9 toneladas de polpa. 
O que se tem é uma estimativa mínima por ano, da Epagri, de aproximadamente 150 a 200 mil quilos. E por aqui, o cultivo é principalmente feito por meio da agricultura familiar e intercalado com outros alimentos.
— Ainda não é uma atividade que se compara à bananicultura, ou cítricos, mas tem um potencial de ir para frente. É uma cultura recente. A banana, por exemplo, é pesquisada há 40 ou 50 anos — explica Fabio Zambonim, engenheiro agrônomo especialista em fitotecnia e pesquisador da Epagri.

Juçara ajuda a prevenir doenças e é fonte de energia

 FLORIANOPOLIS, SC, BRASIL, 19.06.2017: Açais retirados de palmeiras Jussara melhoraram a renda da agricultura familiar dos ___ no interior de Biguaçu. (Foto: Diorgenes Pandini/DCEditoria: FotLocal: FlorianópolisIndexador: Diorgenes PandiniFonte: DCFotógrafo: Fotojornalista
Foto: Diorgenes Pandini / DC
O açaí que se compra no supermercado em potinhos, já processados e adicionados de xarope, conservantes e corantes, é bem diferente da polpa natural, mais diferente ainda da fruta. A polpa fica só na camada superficial, o resto é um coquinho. Tem sabor forte de terra e, dependendo do caso, é frutado. Uma polpa tirada na hora parece até uma manteiga, de tão forte, saborosa e nutritiva.  
Há diversas pesquisas acerca das diferenças nutricionais entre o açaí do Norte (Euterpe oleracea) e a juçara (Euterpe edulis). As opiniões inclusive divergem, e muita gente acha que o daqui é melhor que o de lá. Fato é que açaí bom é açaí bem colhido, bem despolpado e bem preparado. Mas de fato, existem diferenças. 
O Grupo de Estudos em Nutrição e Estresse Oxidativo (Geneo) do Programa de Pós-Graduação e Departamento de Nutrição da UFSC, em Florianópolis, vem estudando os frutos das duas palmeiras desde 2013 e tem o objetivo de avaliar o efeito da ingestão de alimentos ricos em antioxidantes e gorduras boas, que é o caso do açaí, e os efeitos benéficos sobre a saúde.
– Tanto o açaí quanto a juçara são ricos em gordura boa (monoinsaturada). Esse tipo de gordura é benéfica à saúde, contribuindo, por exemplo, para redução do colesterol total e LDL (colesterol ruim) e aumento do HDL (colesterol bom) – explica Sheyla de Liz, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Nutrição da UFSC.
Por apresentar esta grande quantidade de gordura é que se diz que açaí ou apenas só a juçara são alimentos calóricos e muito energéticos. Essa quantidade de gordura e também as fibras alimentares ajudam a aumentar a sensação de saciedade após a ingestão, diminuindo a fome. Consumidos dentro de uma alimentação balanceada e saudável, tanto o açaí quanto a juçara são ótimas opções.
– Deve-se evitar consumir com adição de xarope de guaraná, açúcar refinado, leite condensado ou outras formas de adoçar similares, pois isso pode levar a picos de insulina no organismo e ainda tornar os alimentos mais calóricos e sem outros nutrientes benéficos – alerta a pesquisadora.
Além das gorduras saudáveis, a juçara tem potentes antioxidantes que podem auxiliar na prevenção de doenças. São as antocianinas, responsáveis pela cor arroxeada. 
Elas agem no organismo como um sistema de proteção, defendendo o corpo contra a ação dos radicais livres – moléculas produzidas naturalmente pelo corpo e importantes para o funcionamento do organismo humano, mas quando em excesso podem ser prejudiciais, levando a quadros de estresse oxidativo e contribuindo para o desenvolvimento de doenças.
– Alguns estudos mostraram que a quantidade de antocianina encontrada na juçara é muito superior à quantidade encontrada no açaí (três a quatro vezes maior, sendo essa a maior diferença na composição nutricional entre esses alimentos) – esclarece Sheyla de Liz.
Desde 2016, a merenda escolar da rede municipal de ensino de Antônio Carlos e de Biguaçu tem juçara. Isso porque parte dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento em Educação (FNDE) devem ser investidos na compra de produtos da agricultura familiar.
– A polpa é usada pura para o preparo de pães e bolos, receitas que as próprias merendeiras pesquisaram e testaram – diz Kalina Trizelato de Lima, nutricionista da Secretaria de Educação de Antônio Carlos.
Em 2017, serão 150 quilos de polpa de açaí para as seis escolas da rede municipal de ensino de Antônio Carlos, que atende 960 crianças.
– É um alimento nutritivo, rico em ferro e nutrientes. E o segredo contra a desconfiança de coisa nova, normal nas crianças, é adaptar. Por exemplo, bolo de açaí com chocolate. Vamos dando nomes diferentes para as crianças se adaptarem. Recentemente, durante a exibição do filme Tainá, as crianças viram a protagonista saboreando açaí e nessa oportunidade foi explicado a elas que era a mesma fruta – conta Kalina Trizelato de Lima.
Em um dos projetos desenvolvidos pelo Programa de Pós-Graduação e Departamento de Nutrição da UFSC, foram testadas várias receitas à base de juçara, incluindo preparações doces e salgadas. Se quiser mais receitas, clique aqui para acessar o site.


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Desmatamento do cerrado é economicamente irracional, diz estudo



Reproduzido de http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2017/12/1940904-desmatamento-do-cerrado-e-economicamente-irracional-diz-estudo.shtml

Divulgação
Estudo mostra que milhões de hectares da soja plantada no cerrado estão em áreas de alto ou médio risco produtivo
Estudo mostra soja plantada no cerrado em áreas de alto ou médio risco produtivo
Levantamento divulgado nesta terça (5) pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) indica que boa parte do desmatamento no cerrado para a prática da agricultura é economicamente irracional.
Segundo o estudo do pesquisador Tiago Reis, 5,6 milhões de hectares da soja plantada no cerradoestão em áreas de alto ou médio risco produtivo, inadequadas para a agricultura por causa do clima e do solo. Essas áreas, que apresentam produtividade muito baixa, representam 27% de toda a área de soja no cerrado.
"Estamos cansados de saber que o desmatamento é irracional do ponto de vista social, e o levantamento mostra que ele também é irracional do ponto de vista econômico; essas são áreas para onde a agricultura não deveria se expandir", diz Reis.
Os produtores não só estão plantando em áreas de baixa produtividade, onde o padrão de chuvas é irregular e o solo não é bom, como eles estão deixando de produzir em regiões mais adequadas para a agricultura, que já foram abertas para a pecuária e não "precisariam" ser desmatadas.
De acordo com o estudo do Ipam, apresentado durante o Seminário Nacional do Cerrado, 33 milhões de hectares de pastagens no cerrado estão em área de baixo risco produtivo (muito adequadas para agricultura). Isso corresponde a 58% de todas as pastagens plantadas do cerrado e equivale a quase 80% de toda a área de grãos no Brasil.
"É um desperdício, essas áreas poderiam ser utilizadas para a soja", diz Reis. "E a pecuária poderia ser conduzida em áreas de baixa ou média produtividade agrícola, por exemplo, ou de forma mais intensiva."
Ele aponta que o lucro operacional da soja em áreas já abertas é de R$ 423 por hectare, diante de R$ 100 por hectare da pecuária. Já o lucro operacional obtido em áreas onde a vegetação original é desmatada para se plantar soja no cerrado é muito menor: R$ 87 por hectare.
Segundo estimativas dos especialistas, mais de 50% da vegetação original do bioma já foi destruída –e o desmatamento vem acelerando nos últimos anos. No biênio 2014-2015, o desmate anual do cerrado foi de 10 mil quilômetros quadrados (equivalente a cinco municípios de São Paulo), mais de 50% superior à taxa de desmatamento da Amazônia.
Na região do Matopiba (que compreende os Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), há 7,7 milhões de hectares de pastagens em áreas de alta probabilidade de lucro para plantação de soja, aponta o estudo.
"Existe uma área enorme de pastagem no cerrado que poderia atender à demanda de produção agrícola até 2050 sem gerar desmatamento", diz Arnaldo Carneiro, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.
Hoje em dia, segundo Carneiro, 70% da expansão agrícola no cerrado já se dá em áreas de pastagens. Ele aponta para a necessidade de construir infraestrutura –armazéns e estradas– nessas regiões de pastagens, e não na proximidade de regiões de vegetação nativa, uma vez que a infraestrutura é um dos vetores da expansão agrícola.
Bernardo Pires, gerente de sustentabilidade da Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), aponta, no entanto, para a dificuldade de convencer os produtores a abrir mão de desmatar ou produzir em áreas já abertas sem oferecer incentivos econômicos para isso, e a complexidade de lidar com as cerca de 3 milhões de fazendas no cerrado.
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Agropecuária no cerrado

Plantações e pasto disputam espaço
5,6 mi de hectares
de plantações estão em áreas de risco elevado (inadequadas para a agricultura), somando 27% de toda área produtiva do cerrado
33 mi de hectares
de pastagens plantadas no cerrado estão em áreas adequadas para agricultura (baixo risco)
7,7 mi de hectares
de pastagens no Matopiba (MA, TO, PI e BA) estão em área de elevada probabilidade de lucro para soja
51,9%
de toda soja plantada no Brasil está no cerrado
Fonte: Ipam, Mapbiomas 

http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2017/12/1940904-desmatamento-do-cerrado-e-economicamente-irracional-diz-estudo.shtml

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

VII CONGRESO INTERNACIONAL DE AGROECOLOGÍA



Organizan:
Instituto de Sociología y Estudios Campesinos (ISEC) – Universidad de Córdoba
Grupo de Investigación en Economía Ecolóxica e Agroecoloxía – Universidad de Vigo
Observatorio de Soberanía Alimentaria y Agroecología (OSALA)
AGROECOLOGÍA Y SOBERANÍA ALIMENTARIA:
(re)politizando los sistemas agroalimentarios
Tiempos de crisis ambientales, políticas y sociales. Tiempos donde la alimentación, las tierras y la biodiversidad es acaparada y gobernada por un mercado globalizado. La agroecología, como paradigma científico y como filosofía de acción, pertenece al campo de las alternativas para construir otros mundos: más sostenibles, más justos, más próximos a una soberanía alimentaria.
Por eso la agroecología no puede ser solo una técnica o un método de producción a intensificar. Tampoco puede encerrarse en un sello de certificación para mercados y consumos llamados “ecológicos”. Sin embargo, el concepto de “agroecología” empieza a ser cooptado por organizaciones internacionales, instituciones académicas y políticas públicas que lo utilizan sin alterar el marco (insustentable) de la “globalización alimentaria”. Se pierde su contenido profundo (social, ambiental, político). Se asume como un proceso técnico y de gestión de nuevos mercados agroalimentarios. En las revistas científicas la “agroecología” empieza a ser encerrada en una visión parcial y cada vez más purificada desde la “objetividad” y la “neutralidad”. La “agroecología científica” se hace cada vez más autorreferencial y alejada de los procesos socioambientales en los que se pelea para defender la vida frente a la agricultura expoliadora del capitalismo.
Por eso, tenemos una necesidad de repolitizar la agroecología, de reivindicar la toma de partido en la lucha por la vida desde procesos colectivos, emancipadores y sustentables. Reivindicar las rebeldías frente a la globalización de hambrunas y malnutriciones, la concentración de poder en manos de las transnacionales, los ecocidios y los epistemicidios. Reivindicamos por ello las luchas por el territorio, la demanda de una soberanía alimentaria, el derecho a la alimentación, tal y como realizan movimientos sociales campesinos, indígenas o aquellas redes que promueven un decrecimiento con criterio de justicia global. La lógica del libre comercio neoliberal sigue provocando hambre, dolor y destrucción; la concentración de poder desde las empresas de semillas, químicos biocidas y tecnología continúan su carrera de privatización y mercantilización de la vida; el acaparamiento de tierras en todo el mundo se enfrenta a la reivindicación desde la soberanía alimentaria de una reforma agraria integral; las condiciones de trabajo en el campo de locales y migrantes sigue siendo un horror social; el poder de la gran distribución pretende apoderarse de todos los mercados; las políticas públicas siguen rindiéndose a los lobbys de la industria; las mujeres en el medio rural siguen como subalternas de la subalternidad; etc. Desde La Vía Campesina en sus diferentes momentos históricos, foros de soberanía alimentaria, Nyelení o en la actualidad desde su VII Conferencia, junto con los movimientos afines, sigue denunciando y peleando por cambiar este modelo agroalimentario, al igual que todos los colectivos y experiencias que en los distintos territorios pelean por la soberanía alimentaria y la agroecología.
Entendemos que la agroecología es, sobre todo, una visión política para la construcción de nuevas sociedades para una urgente respuesta a los problemas que nos acucian globalmente. Nuevos mundos, a escala local y en un plano global, en los que pongamos la vida en el centro. El objetivo será poner en pie procesos que cuiden y sostengan cuerpos y territorios de forma sustentable. Donde
la producción, la distribución y el consumo de alimentos sean ambientalmente sanos, socialmente justos, económicamente viables, culturalmente apropiados, completos nutricionalmente, a través de sistemas agroalimentarios relocalizados. La agroecología es política, la agroecología es el camino para la construcción de nuestras soberanías alimentarias.
Apostamos por una agroecología que desafíe las explicaciones que el propio sistema agroalimentario especulativo y globalizado nos da sobre: el hambre, la pobreza rural, la malnutrición, el cambio climático o el consumo ecológico (como nicho de mercado). Para ello hay que seguir redescubriendo, acompañando y construyendo prácticas y experiencias agroecológicas en todos los rincones del planeta, desde la agricultura campesina y la agricultura familiar hasta los modelos de consumo y las culturas alimentarias sustentables. Apoyando alternativas que nos van articulando otros mundos: desde el intercambio de semillas de variedades locales entre agricultoras, hasta la defensa de alimentos justos y sanos; pasando por sistemas de certificación apropiados, circuitos cortos sostenibles y la defensa colectiva del patrimonio agrario; creando sinergias para una agroecología política.
Porque la agroecología es autonomía, es creatividad, es procesos colectivos, es cooperación social anclada en nuestros territorios. La agroecología es ciencia, es práctica y movimiento. Es suelo, granja y sistema agroalimentario. Es movimientos sociales y políticas públicas. Y tendrá que ser feminista o no será: debe abrazar la vida y dejar de invisibilizar a las mujeres y su papel en la reproducción de la misma; romper los moldes del patriarcado y sus formas de dominación sobre la naturaleza y sobre las personas; construir espacios y prácticas de igualdad, de empoderamiento colectivo, de libertad de decisión y de nuevas formas de valorar la vida desde economías feministas y economías ecológicas.
Por todo ello, estamos imaginando este congreso agroecológico como un espacio de encuentros e intercambios. Buscamos construir sinergias y alimentar apoyos entre el mundo académico, el político, el social y el conjunto de redes que parten de iniciativas concretas: nuestros grupos de trabajo estarán compuestos por integrantes de estos mundos; lanzaremos colectivamente reflexiones políticas sobre los grandes temas que nos preocupan y sobre las alternativas que queremos ayudar a construir. Pretendemos además permear con este color agroecológico a la ciudad de Córdoba. Para disfrute de todas las que venís de fuera y para que la gente de aquí redescubra otra nueva ciudad y otro mundo posible.
Desde el comité organizador os invitamos a participar en cualquiera de las opciones que os proponemos: tanto a través de los grupos de trabajo, presentando comunicaciones o póster, asistiendo a las ponencias y mesas redondas, a los distintos talleres con colectivos y experiencias, proponiendo y/o disfrutando de las actividades agroecológicas de ocio y culturales, y en todos los casos sumando ideas que alimenten este congreso.
Os esperamos en Córdoba los días 30, 31 de mayo y 1 de junio de 2018 para compartir agroecología y también sabores, colores y calores andaluces.
¡Globalicemos la lucha, globalicemos la esperanza!
Por un mundo rural vivo.
FECHAS IMPORTANTES
Celebración del Congreso: 30, 31 de mayo y 1 de junio de 2018, Córdoba.
Lanzamiento del Congreso: 15 de octubre de 2017
Fecha límite recepción de resúmenes de comunicaciones y experiencias: 16 de febrero 2018
LENGUAS OFICIALES
Idiomas oficiales: castellano, portugués e inglés (no habrá servicio de traducción).